Os limites da resiliência médica  
  Data de publicação: 31/05/2011  
     
 

"O que não me mata me fortalece"-  Friedrich Nietzsche

No ano de 1807 o físico inglês Thomas Young ao estudar a tensão e deformação de barras metálicas, denominou de resiliência a capacidade de um material acumular energia sem que isto leve a sua ruptura. Após cessada a tensão, ele volta ao seu estado normal.

O conceito da física modernamente foi assimilado pelo mundo corporativo, que considera como resilientes aqueles que desenvolveram habilidades para superar tensões, pressões, estresses, mantendo o equilíbrio emocional, sem significativas modificações pós-traumáticas. São também as pessoas que não desistem com facilidade frente as condições adversas, aos obstáculos e conjunturas negativas. Decretam tais circunstâncias como passageiras, pontuais e superáveis.

A  própria  natureza da atividade médica, conduz ao raciocínio de que a resiliência deva ser um dos atributos indispensáveis para a boa assistência. As angústias das adversidades cotidianas, as dificuldades pessoais de várias causas, o sofrimento emocional compartilhado com os pacientes, a luta pela vida, permitem o entendimento de que ser médico é ser resiliente, principalmente por reconhecer o  seu próprio papel e responsabilidades na sociedade.

No entanto, até mesmo a origem etimológica da expressão resiliência - do latim "saltar para trás", "voltar ao estado natural" - nos conduz a uma nova reflexão. Seria de valia para a Medicina "saltar para trás"? Ou até mesmo,o médico consegue voltar ao seu estado natural ao ser irrestritamente resiliente?

Ao desenvolver a teoria da natureza do erro humano, James Reason apontou que diversos níveis de risco são identifícáveis para a ocorrência de incidentes, o que demonstra que no caso do ato médico, muito raramente o resultado adverso tem sua gênese na exclusiva participação deste. Influências organizacionais, bem como condições adversas de diversas naturezas atuam em sinergia. O erro é antes sistêmico. As defesas, barreiras e dispositivos de segurança devem ser prioritariamente desenvolvidas no próprio sistema.

No nosso país o médico, por sua alta resiliência, pode assumir riscos por falhas que são sistemáticas, exclusivamente. Em que pese serem riscos da sua rotina de trabalho, em situações limites, críticas e extremas, pode resultar em riscos para a assistência aos pacientes. Tais limites estão previstos nas normas éticas e legais e merecem apreciação.

O código de ética médica estabelece que o médico deve recusar-se a exercer sua profissão em instituição pública ou privada onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou a do paciente, bem como a dos demais profissionais, podendo inclusive suspender suas atividades, individualmente ou coletivamente, quando a instituição pública ou privada para a qual trabalhe não oferecer condições adequadas para o exercício profissional ou não o remunerar digna e justamente.

Até mesmo o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, reconhecido com dispositivo legal aplicável na assistência à saúde, determina que  o fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados e riscos quando  não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar.

Respeitados esses limites o médico deve fortalecer-se na resiliência, pois assim, beneficia o paciente, projeta a ciência para novos desafios e mantém vivo o prazer  ensinar  a arte. Que o médico sempre consiga "voltar ao seu estado natural".

Roberto Augusto de Carvalho Campos
Mestre e Doutor em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo
Professor Doutor do Departamento de Direito Penal da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
Assessor Jurídico da Associação Médica Brasileira
Rosmari Aparecida Elias Camargo
Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
Assessora Jurídica da Associação Médica Brasileira
Publicado no Jornal da Associação Médica Brasileira - Março/Abril 2011 - Ano 52 - nº 1371
 
 
 
 
     
   
 

 

 

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