A privação do sono na Residência Médica  
  Data de publicação: 21/07/2009  
     
 

A Residência Médica, idealizada em 1885 por Willian Stewart Halsted, teve desde a sua origem o objetivo pedagógico de orientar os médicos em fase de especialização para novos conhecimentos, habilidades e atitudes. 

No Brasil, a legislação estabelece que a Residência Médica apresenta-se como modalidade de ensino de pós- graduação, destinada a médicos, sob a forma de cursos de especialização, caracterizada por treinamento em serviço, funcionando sob a responsabilidade de instituição de saúde, universitárias ou não, sob a orientação de profissionais médicos de elevada qualidade ética e profissional. 

Apesar de não se firmar qualquer vínculo laboral entre o médico residente e a instituição que oferece treinamento, a Residência Médica, desde os seus primórdios, foi objeto de discussão visando se estabelecer critérios e normas éticas para sustentação jurídica dos programas, como também, pela garantia de adequadas condições do próprio treinamento em serviço do médico residente. 

O número de horas de efetiva dedicação ao serviço também está previsto em lei, dispondo que os programas dos cursos de Residência Médica respeitarão o máximo de 60 (sessenta) horas semanais, nelas incluídas um máximo de 24 (vinte quatro) horas de plantão. 

No entanto, é inevitável, pela natureza do treinamento, que o médico residente esteja sujeito a longos períodos de privação de sono, com o agravante de que o jovem médico, por compromissos pessoais, tenha que assumir plantões em serviços alheios ao do seu treinamento; ou ainda, porque entende que a qualidade do aprendizado na Residência Médica está diretamente relacionada ao número de horas trabalhadas. 

A conseqüente privação do sono, apesar da impressão subjetiva do médico de não ocorrer qualquer repercussão à sua atividade, provoca alterações cognitivas, dificuldade de aprendizado de conhecimentos novos, de memorização, motivação, como também, com freqüência, humor alterado, ansiedade e depressão. 

A partir do final da década passada, estudos com médicos residentes americanos demonstram que pelo menos 20% deles tinham no máximo 5 horas de sono por noite, com a constatação de que, com maior freqüência, se envolveram em acidentes; conflitos com colegas; alcoolismo; uso de medicamentos, bem como eventos adversos culposos. 

Constatou-se, ainda, que o modelo tradicional de residência médica, com exagerado número de horas dedicadas ao trabalho, configurou-se como influência negativa no treinamento e na qualidade de atendimento e que a reforma dessas condições não afetaria a qualidade da formação do especializando. 

No Brasil, o Profº Luiz Antônio Nogueira Martins, do Núcleo de Assistência e Pesquisa em Residência Médica da Universidade Federal de São Paulo, ao pesquisar sobre o tema concluiu que, para o melhor rendimento e aproveitamento do treinamento, o profissional deve respeitar ao que denominou “mandamentos” do médico residente, com orientações práticas e objetivas de atitudes para essa fase de formação.  

Pela proposta, o médico residente deve evitar assumir outros compromissos profissionais para não sobrecarregar mais ainda a sua agenda; não assumir “plantões fora” durante o R1 e fazer uma lista diária das prioridades no trabalho, suprimindo tarefas que apesar de importantes não são essenciais. 

O respeito à biologia do ciclo sono – vigília, configura- se como hábito saudável e ato de respeito e cuidado médico com o seu paciente, além de tratar-se de efetiva estratégica de prevenção de eventos questionáveis como erro médico.  

Roberto Augusto de Carvalho Campos

Mestre e Doutor em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo

Professor Doutor do Departamento de Direito Penal da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Assessor Jurídico da Associação Médica Brasileira.

Virginia Novaes Procópio de Araujo

Advogada associada do escritório Camargo e Campos Advogados.

Artigo publicado no Jornal da Associação Médica Brasileira – JAMB Janeiro/Fevereiro 2009

 
     
   
 

 

 

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